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MINHA JORNADA

Boris Pochychenko
Nascido em 26 de Abril de 1960
Cidade natal: Pripyat - Ucrânia


Meu nome é Boris Pochychenko e hoje começa a minha história na Inglaterra, mas não pensem que eu comecei hoje no futebol. Vou contar para vocês como começou a Minha Jornada que me trouxe até aqui.
Eu sou filho da Ucrânia, nascido e criado na cidade de Pripyat, meu pai era treinador de futebol do time da cidade e eu jogava no time de zagueiro, confesso que não tinha nenhuma afinidade com a bola, mas meu pai falava que eu compensava isso por eu ter disciplina tática.
Em 1986 no dia em que eu completava 26 anos, algo muito ruim aconteceu e mudou a vida da minha família para sempre, um desastre nuclear arrasou a minha cidade. Este triste evento, fez com que eu e minha família saíssemos do país e partíssemos para recomeçar a vida na Rússia. Na memória restou apenas boas lembranças do meu antigo país, do frio e da neve gelada tocando o meu rosto e da bola de trapo herdada do meu pai que passei para meu irmão Viktor.

Casa no subúrbio em Chernobyl, abandonada às pressas pela família Pochychenko
No dia do desastre de Chernobyl perdi meu irmão Viktor, que morreu na explosão da usina nuclear, ele estava com outros 40 estudantes da escola primária de Pripyat, quando fiquei sabendo da morte do meu irmão, uma dor atordoante remoeu meus ossos, cai de joelhos e olhei para o céu perguntando a Deus porque ele precisava de Viktor lá no céu. Meu pai Yuri e minha mãe Mirtha nunca se recuperaram daquele fatídico dia em que perderam o filho. Lembro bem das partidas de futebol no quintal de casa, a bola de trapo nos divertia e nos entretinha por horas. Na época do desastre eu completara 26 anos e meu irmão viktor tinha apenas dez. Nós conversávamos por horas sobre futebol, éramos melhores amigos, foi ele que me incentivou a pendurar as chuteiras e fazer o curso de treinador no Shakhtar Donetsk. No dia que perdi meu irmão, pensei em desistir de tudo, abandonar este sonho que parecia distante a cada dia, mas, por uma questão de honrar a memória de Viktor, resolvi lutar e fazer disso meu objetivo, eu queria ser treinador de um time expressivo no futebol.
Em maio de 1986 minha família desembarcou em São Petersburgo, eu acabara de completar 26 anos e sabia que o caminho até o meu sonho, o sonho que era de Viktor também, era duro e exigiria muita dedicação de minha parte. Neste mesmo ano comecei um novo curso de treinador de futebol no Dynamo Saint Petersburg, foi incrível, foi tão bom que em 1990 eu assumi as categorias de base do clube.

FC Dynamo Saint Petersburg

DÉCADA DE 90
Neste período, observei dois atletas mirins, ambos com 9 anos na época. Hoje eles são bem conhecidos e é claro que vocês devem conhece-los, o primeiro é o Roman Pavlyuchenko ele tinha um estilo próprio, era mais alto que as outras crianças e chutava forte e o segundo, Arshavin, este era o ligeirinho da turma, com uma rara habilidade e visão de jogo. Sinceramente eu acho que tenho o faro para achar novas revelações no futebol, vocês podem chamar de pura sorte ou feliz coincidência, mas o fato é que eu não deixei de seguir a minha intuição e logo conversei com o dirigente do Dynamo Saint Petersburg para que acompanhássemos os dois meninos de forma separada das outras crianças. Mais tarde, três anos depois, os garotos com 12 anos, assinaram um pré-contrato com o clube.

MINHA BRIGA COM O PRESIDENTE DO DYNAMO
Eu gostaria de dizer que minha passagem pelo Dynamo, na década de 90, foi só alegrias, mas infelizmente não foi assim, com a saída do presidente e amigo Grogorov, perdi espaço no clube e a minha esperança de ascender para a equipe principal foi pelo ralo. No entanto, aproveito para esclarecer os boatos levantados na época, fiquem sabendo que o fato que desencadeou a briga visceral minha com o atual presidente Andrei Tchervitchenko foi o fato dele ter liberado as duas joias das categorias de base, Pavlyuchenko e Arshavin, este último assinou com o Zenit de São Petrsburgo e o clube do Dynamo não recebeu nada como clube formador. Não quero ver este presidente nunca mais em minha frente, eu o acusei de um novo CZAR da Rússia, falei que ele mandaria o Dinamo Saint Petersburg para a idade das trevas e acabaria com todo o trabalho desenvolvido por mim e pelo ex-presidente Grogorov.

UM NOVO COMEÇO
Dois anos mais tarde, em1994, agora com 34 anos, no ano da copa do mundo nos Estados Unidos, fui convidado para integrar a delegação da Rússia, fiquei honrado em receber o convite do amigo e meu mentor Oleg Romantsev. Nesta copa, foi a primeira vez que a Rússia atuou depois de ter saído da União Soviética, mas infelizmente caímos em um grupo muito forte, tendo inclusive a seleção do Brasil.
Esta experiência em 1994 foi muito boa para mim, me tornei o auxiliar técnico do Sr. Romantsev e neste período trabalhávamos tanto na seleção Russa quanto no time do Spartack, foi um grande aprendizado, pois o treinador me ouvia minhas sugestões, ele me cobrava bastante a minha participação na gerência do time. Lembro que minha missão na época era garimpar as categorias de base em busca de uma “grande promessa”. Foi a consolidação de um grande trabalho, pois a era Romantsev, pois Sob o comando dele nosso time ganhou nove campeonatos russos entre 1992 e 2001.
Neste período a fama bateu na porta do Spartak Moscou, junto com isso veio o respeito entre importantes clubes europeus, se tornando um dos mais fortes times da Europa. E em 1996, o meu amigo Romantsev assumiu a presidência do clube me deixando com a missão de comandar os trabalhos em seu lugar. Com o aumento do meu protagonismo na equipe, comecei a implantar a minha filosofia de trabalho aos poucos, na minha cabeça o sucesso de um time passa pela valorização dos jogadores da base.
OS OITOS GLADIADORES
Se eu tivesse que escolher um momento nesta minha jornada para destacar, sem dúvida nenhuma, foi o ano de 1998, na fase eliminatória da Copa da Rússia daquele ano, o nosso time do Spartak jogou uma das partidas mais emocionantes de sua história, contra o Lokomotiv Moscou. A história começou assim... Aos 7 minutos da primeira etapa, o zagueiro Gorlukovitch foi expulso, e para piorar, a equipe adversária marcou dois gols logo no primeiro tempo, aos 12' e aos 28'. Aos 34', o meio-campista Tsymbalar também foi expulso, e a equipe do Spartak terminou a primeira etapa perdendo por 2 x 0 e sem reação alguma, fato que fez os adversários aplicarem uma formação mais defensiva e substituírem o centro-avante Dmitri Loskov pelo zagueiro Solomatin. No início do segundo tempo, com a entrada do atacante Kanischev, o Spartak marcou o primeiro gol, aos 64' mas não contava com o terceiro gol do Lokomotiv, marcado por Borodiuk logo em seguida, aos 73'. O Spartak diminui aos 81' com o capitão Dmitri Alenitchev, e quando tudo parecia perdido, aos 88', o artilheiro Tikhonov empata para a equipe. Apesar da lufada de ar fresco, o goleiro Filimonov é expulso nos acréscimos, ao provocar um pênalti, e sem a possibilidade de substituição, Tikhonov torna-se o arqueiro da equipe, e espantosamente consegue defender o pênalti cobrado por Kosolapov. Passado o nosso susto, os oito jogadores do time, seguram o placar durante toda a prorrogação e logram em fazer a partida ser decidida nos pênaltis, nos quais venceram os rivais, após um erro na cobrança da equipe do Lokomotiv, estes atletas estão na história do clube e são conhecidos como os "oito gladiadores" e os "oito heróis".

Andrei Tchervitchenko cruza novamente o meu caminho
Com o término do mandato de presidente do meu amigo Romantsev no Spartak em 2000, senti que deveria também partir para um outro clube e por em prática o meu projeto de ser treinador de uma grande equipe, pois nestes anos todos estive sempre como auxiliar técnico e não exerci um protagonismo de fato. Não tenho do que me queixar, foram anos de muito aprendizado. O meu arqui-inimigo Andrei Tchervitchenko veio para o Spartak após a saída do Romantsev e eu aproveitei para sair junto. O Andrei era um mal caráter, nós nunca nos suportamos.
Agora, alguns anos da minha saída, li em um jornal que ele estava em maus lençóis, o envolvimento em esquemas de corrupção e a consequente prisão dele fez com que o Spartak fosse também prejudicado, tanto por ser vítima da corrupção da diretoria como também por ser alvo de inúmeras investigações da polícia, fazendo com que o clube entrasse em uma profunda crise enquanto seus rivais faziam contratos milionários em um período que a política da Rússia carecia de estabilidade. Eu lamento pelo Spartak, um clube grandioso e que me deu muitas alegrias.


O ESTÁGIO COM CAPELLO
Em 2002, fui para a Itália fazer um estágio com o treinador Fabio Capello, um amigo que apreendi a admirar. Meu período de experiência foi de 2 anos, foi incrível esta experiencia e sinto que estou preparado para seguir sozinho e fazer a minha jornada.

SINTO QUE ESTOU PRONTO
Em 2010 aceitei o convite do Dynamo Saint Persburg para treinar a equipe principal. Nesta segunda passagem consegui implementar uma nova política de valorização das categorias de base, reestruturamos a equipe e buscamos apoios dos empresários locais, foram longos 7 anos muito vitoriosos.

A CEGADA À INGLATERRA -  O COMEÇO DA MINHA JORNADA
Em 2017, recebi o convite do presidente do Hull City para treinar a equipe. Agora, aos 57 anos sinto que o sonho se realizou. Finalmente alcancei a posição de treinador de uma grande equipe da Inglaterra.
Eu conversei com o presidente que falou sobre as prioridades do Clube, falou também que apesar do clube não priorizar o desenvolvimento das categorias de base, ele me deixou à vontade em trabalhar com alguns jovens para prepara-los para a equipe principal. Eu agradeci, pois lapidar novos talentos é especialmente o trabalho ao qual me dedico mais.


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